terça-feira, 11 de novembro de 2008

Espiadinha de leve


Eu estava no trabalho hoje e de repente aparece a Fernandinha correndo na minha direção. Deu aquela felicidade de "Ah, adooro surpresa!". Aí vendi finalmente o Eles Eram Muitos Cavalos do Ruffato pra ela, um de teoria sobre a Clarice e resolvemos enfim tomar uma água de côco, já que estava na hora feliz de ir pra casa.

Sentamos na orla do Leblon e dá-lhe assunto atrasado de fim de semana. Aí acabei lembrando que eu queria mostrar o livro novo que eu comprei. Aí ela exclamou: "Caralho, você não pára de comprar livro!". E enfim tive a real noção de que eu sou realmente uma compulsiva.

Mais tarde, troquei de ônibus no centro (eu pego um na orla até o Castelo e um no Castelo pra Ilha), e sentei no meu assento, no cantinho e continuei a ler o ensaio "O Narrador" do Benjamin que estou relendo adorandamente. Leitura vai, leitura vem, muitos (!) passageiros entram, e senta uma menina do meu lado e abre também um livro. O ônibus foi balançando pra cá, pra lá, e eis que com o balançar dele - e das palavras grafadas junto - dormimos.

Lá pra Linha Vermelha, acordei com meu livro fechado e reparei que o dela estava aberto, com seu braço segurando as páginas. E começou então o movimento do qual queria falar: foi batendo uma curiosidade imensa sobre qual era aquele livro daquela minha vizinha de banco.

Fui disfarçadamente me posicionando de uma maneira que não demonstrasse minha intromissão, fui deslocando o olhar e comecei a ler algo como "Henry isso, Henry aquilo", e pude supor que se tratava de um autor de língua inglesa. A página estava aberta no início de um capítulo, só que o "12" que o numerava, não me ajudava muito. Tentei olhar se tinha algo escrito na parte superior das páginas, como alguns livros têm, tipo no livro "Grande Sertão: Veredas" do Rosa, algumas edições vêm com "GRANDE SERTÃO: VEREDAS" na parte superior da página esquerda e "GUIMARÃES ROSA" na parte superior da página direita. Mas aquela edição da tal minha vizinha não tinha este tipo de marcação. As páginas eram amareladas, pude supor que não era uma autora/autor novíssimo pros brasileiros, como Philip Roth, Coetzee, ou algo do tipo...

Lembrei então de Cees Nooteboom, que no livro "Paraíso Perdido", de que tanto falo, descreve a mesma situação por que eu estava passando dizendo que "(...) as mulheres, aprendi nesse meio-tempo, costumam segurar seus livros de uma maneira a não lhe dar chance de descobrir o título, seja no trem, no banco de um parque ou na praia. Preste atenção."

Mas o destino contrariou Nooteboom e acabou que a menina acordou e fechou o livro. Eis o título! E era só a merda do Sidney Sheldon - broxei intelectualmente na hora. ¬¬

3 comentários:

fernanda disse...

hahahahahahah sidney sheldon E paulo coelho...
sua compulsiva, vou te dar uma dica... eu era exatamente assim, lembra, voltei do canadá com 13 livros comprados em 3 semanas e tudo mais. mas quando começar a não ter espaço pra você botar os ditos cujos, eis o alerta... cê já viu como anda meu quarto, né? então. faça à natureza esse favor, só compre se planejar ler a metade no mesmo dia. comprar um livro só por vez é um alento.

ó esse conto do cortázar (na verdade se chama "o fim do mundo do fim"): http://bruaa-editora.blogspot.com/2008/10/de-cada-vez-que-entro-numa-livraria.html

Anônimo disse...

adorandamente, adorei isso.

Roberta Estevam disse...

Leitura vai, leitura vem, muitos (!) passageiros entram, e senta uma menina do meu lado e abre também um livro. O ônibus foi balançando pra cá, pra lá, e eis que com o balançar dele - e das palavras grafadas junto - dormimos.

lindo, lindo...