sábado, 20 de dezembro de 2008

Hoje estava eu com o carrinho carregado de "tigres brancos", pensando na vida, e de repente surge um cliente meio esquisito, grande, e um tanto quanto....hummmm...gritante, me pedir uma ajuda. Aí ele começou com papo de que o livro que queria era de arquitetura, aí meio que o descreveu - sou zero à esquerda com esses livros, quando forem lá procurem QUALQUER livreiro, mesmo eu - e também uns de arte. Não sei qual palavra que produziu, mas teve uma infeliz palavra que tem um ponto articulatório tal, em alguma consoante que a compõe, e essa tal articulação fez com que uma chuva de perdigotos voassem por todo o lado esquerdo da minha face. A maioria deles ficou na lente do meu óculos, só que UMA gota infeliz acho que furou a minha lente e foi parar dentro do meu olho. Ótimo. A loja cheia, 20 de dezembro, último final de semana antes desse Natal que eu meio que nem assimilei ainda...e caem gotas de cuspe de um estranho, aos montes, na banda esquerda do meu rosto. Passei o atendimento pra Vivian, e ela passou o dela pra mim... Uma espera infinda pela confirmação de um livro com um livreiro de Ipanema. Quando finalmente acabou, não lembro nem mesmo o rosto do cliente dela que eu ajudei, saí correndo pra cozinha e lavei meu rosto com detergente mesmo. Meu óculos junto. Tomei banho na pia da cozinha, acho. E se foram embora os perdigotos alheios que me fizeram companhia por alguns minutos. "Ufa, não vomitei."

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O que fizemos de nós?


O soldado que resguarda o Pantheon de Caxias, em vestes militares verdes, mas visivelmente chamativo em frente ao prédio branco da Central do Brasil, torna-se mais uma pedra no paralelepípedo. Simples hábito, como se a cidade tivesse as árvores e o verde que o camuflam normalmente nas batalhas em matas fechadas.

Uma menina chora no meio da multidão que se dirige ao trabalho e o homem com sua mala em mãos pára diante dela para guardar a carteira dentro do bolso, olhando atentamente para seu traseiro, ao continuar seu caminho, produzindo um contorcionismo de circo.

Começa a chover, a multidão abre os seus garda-chuvas iguais. Um homem carregado deles aparece do além e grita "QUINZE REAIS NA MINHA MÃO PRA ACABAR!". E a menina cai de joelho no chão, confundindo as suas lágrimas com a água da chuva que cai sobre si.

domingo, 30 de novembro de 2008


Eu queria ter sido a Greta Garbo. Ter visto ao vivo o Bob Dylan jovem, na minha frente, ter tocado seu cabelo de leve e tê-lo sentido escorrendo entre meus dedos. Queria ter visto Bethânia, sentada no teatro de arena enquanto ela cantava Carcará com seu sorriso ali: primário. Queria ter visto as sobrancelhas quase invisíveis de Liv Ullman. A expressão mítica de Buster Keaton. O cheiro do paletó de Proust. Ter tido meus olhos ofuscados pelas cores da tropicália. Ter-me chocado com as invenções artísticas de Andy Warhol. Com o rock recém-surgido. Com a escrita hipnotizante de Lispector enquanto não tinha existido coisa tão hipnotizante. Ter ouvido a voz de Marguerite Duras dizendo: "J'avais quinze ans et demi". E o Beatles cantar "Something in the way she moves" andando de bondinho elétrico enquanto via a rua passar diante dos meus olhos.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008


quando a gente passa por perigo
a vida fica com mais passarinhos

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

veredas: lençois


como uma espécie de ar que transmite desgosto, como uma espécie de vida transcendental que nos pega pelo pé e nos traz de volta à terra. o limo escorregadio dos chãos de cimento são assim: nos fazem transcender e esbotifar no chão em seguida. e sentimos os grãos de areia perfurando o rosto, enquanto a blusa branca torna-se verde, e o joelho, vermelho.

a nitidez como vejo as coisas faz-me ter falta da embriaguez dos embaraços braçais. dos soutiens ao leo, das calcinhas em cima do sofá. do lençol desarrumado de amor. do lençol que nos transmite, enquanto voltamos do banheiro, depois do xixi, uma idéia simbólica do que fizemos com as nossas vidas e com os nossos sentimentos - umas malhas emboladas e sem sentido, sob(re) as quais não entenderemos nunca, e de onde não sairemos tão cedo; perdidos.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Espiadinha de leve


Eu estava no trabalho hoje e de repente aparece a Fernandinha correndo na minha direção. Deu aquela felicidade de "Ah, adooro surpresa!". Aí vendi finalmente o Eles Eram Muitos Cavalos do Ruffato pra ela, um de teoria sobre a Clarice e resolvemos enfim tomar uma água de côco, já que estava na hora feliz de ir pra casa.

Sentamos na orla do Leblon e dá-lhe assunto atrasado de fim de semana. Aí acabei lembrando que eu queria mostrar o livro novo que eu comprei. Aí ela exclamou: "Caralho, você não pára de comprar livro!". E enfim tive a real noção de que eu sou realmente uma compulsiva.

Mais tarde, troquei de ônibus no centro (eu pego um na orla até o Castelo e um no Castelo pra Ilha), e sentei no meu assento, no cantinho e continuei a ler o ensaio "O Narrador" do Benjamin que estou relendo adorandamente. Leitura vai, leitura vem, muitos (!) passageiros entram, e senta uma menina do meu lado e abre também um livro. O ônibus foi balançando pra cá, pra lá, e eis que com o balançar dele - e das palavras grafadas junto - dormimos.

Lá pra Linha Vermelha, acordei com meu livro fechado e reparei que o dela estava aberto, com seu braço segurando as páginas. E começou então o movimento do qual queria falar: foi batendo uma curiosidade imensa sobre qual era aquele livro daquela minha vizinha de banco.

Fui disfarçadamente me posicionando de uma maneira que não demonstrasse minha intromissão, fui deslocando o olhar e comecei a ler algo como "Henry isso, Henry aquilo", e pude supor que se tratava de um autor de língua inglesa. A página estava aberta no início de um capítulo, só que o "12" que o numerava, não me ajudava muito. Tentei olhar se tinha algo escrito na parte superior das páginas, como alguns livros têm, tipo no livro "Grande Sertão: Veredas" do Rosa, algumas edições vêm com "GRANDE SERTÃO: VEREDAS" na parte superior da página esquerda e "GUIMARÃES ROSA" na parte superior da página direita. Mas aquela edição da tal minha vizinha não tinha este tipo de marcação. As páginas eram amareladas, pude supor que não era uma autora/autor novíssimo pros brasileiros, como Philip Roth, Coetzee, ou algo do tipo...

Lembrei então de Cees Nooteboom, que no livro "Paraíso Perdido", de que tanto falo, descreve a mesma situação por que eu estava passando dizendo que "(...) as mulheres, aprendi nesse meio-tempo, costumam segurar seus livros de uma maneira a não lhe dar chance de descobrir o título, seja no trem, no banco de um parque ou na praia. Preste atenção."

Mas o destino contrariou Nooteboom e acabou que a menina acordou e fechou o livro. Eis o título! E era só a merda do Sidney Sheldon - broxei intelectualmente na hora. ¬¬

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

The Times They Are A'Changing


Eu acompanhei o andamento da contagem de votos da eleição americana a madrugada inteira. E a cada arrepio, de cada vitória democrata em cada estado - principalmente nos inesperados - vinha a pergunta: "Mas o que isso significa pro mundo? Porque isso me atinge, porque todos os canais de todos os países estão varando a madrugada acompanhando este evento, com tanto fervor, com tanto ensusiasmo?!”
A resposta não veio nas horas que decorreram a apuração. Veio ao amanhecer, poeticamente.

Partamos do seguinte nome: George W. Bush.

Este homem destruiu a esperança de muitos cidadãos deste planeta – em seu mandato a condição real de uma mudança na mentalidade da população mundial se esvaiu.
Bush nos fez ver o Oriente Médio sumir em cinzas que escondiam seus prédios, em sangue que manchava seu deserto. Bush nos fez ver o que há tempos não víamos com tal intensidade: uma guerra, uma guerra de verdade. Só que não era uma guerra como o evento era entendido há algumas décadas atrás. Foi uma guerra suja, com uma estratégia gananciosa por trás dela. Com uma gana de poder e de soberania que nos fez ter vergonha da nossa raça. Uma guerra contra um mal que não existe, um mal invisível.
E foram confeccionadas camisas com seu rosto e um nariz de palhaço, queimaram-se bonecos e bonecos representando-o e diversas bandeiras americanas viraram carvão.
Bush, ao nos destruir ironicamente nos renovou. Como bem sabemos, aprendemos somente diante do pavor, do medo, da destruição. Diante de uma espécie de niilismo da moral. Diante do limite, quando vemos que não há mais saída.

Obama não é história só por ser negro, descendente de nigerianos e com sobrenome muçulmano, ou até mesmo por ser um democrata vindo ao poder depois de 8 anos. Obama não é história por grandiosidade. Obama é história por representar uma mudança de mentalidade no país que guiava a economia global, que guiava o mundo. Um país onde não se via mais esperança no que faz mudar - os jovens - , já que os mesmos jovens de que falo estavam mergulhados em uma tremenda apatia política e cultural.
Obama é a projeção de que as coisas podem ser de outra forma. Obama é o expectro de um futuro com cara nova. Obama é o rosto de um possível novo século, de uma possível nova juventude, de um possível novo mundo. E é justamente com isso que esta figura nos permitiu novamente sonhar.

“Maio de 68”? Não sabemos... Talvez nada mude, talvez volte sim essa força transformadora. Mas pelo menos agora, não sabemos, e podemos esperar... Pelo menos podemos esperar com a pergunta: Será?